Já faz tempo...
Comecei este blog com o propósito de descrever minhas aventuras diárias, com o objetivo de não correr o risco de me esquecer delas.
Isso foi em fevereiro deste ano.
Eu acabava de fazer uma viagem incrível e fiquei com muita vontade de compartilhar com amigos e principalmente, ter o registro de minha “memória pessoal” das coisas que para mim são muito importantes.
Ao longo dos meses, expus muito de mim mesma. Claro, este blog fala sobre tudo que eu penso ou faço. E só isso.
Não esperava que ninguém lesse nada aqui, além das pessoas que me amam e vivem distantes (ferramenta de aproximação) . Mas tive algumas surpresas interessantes.
Quando se faz determinada busca no Google sobre o Chile, por exemplo, como cito lugares, cidades e roteiros, este blog acaba por ser uma das possibilidades de pesquisa, então, muitos acessos de pessoas desconhecidas. Eu nem imaginava que isso pudesse acontecer. E isso trouxe uma nova experiência para mim. Recebi e-mails interessantes, perguntas, entre outras abordagens...
Inclusive, vou citar um caso bem legal! Uma prima querida, com a qual não tenho quase nenhum contato (infelizmente) me achou assim. Ela planejava sua viagem ao Chile, quando de repente ao fazer uma busca veio parar no “Aventuras do cotidiano” e para sua surpresa, ao ler mais de uma postagem, descobriu histórias bem conhecidas dela e deparou-se com uma foto antiga com a qual está bem acostumada, comum a todos nós da família.
Mas voltando ao assunto, durante alguns posts falei sobre coisas do meu universo. Minhas crenças, minha rotina, minha família, meus amores, meus encantos e desencantos...Tentei usar linguagem leve e lúdica, assim como tenho tentado encarar a vida real. Mas, aconteceram situações difíceis nos últimos tempos e tive de aprender a colocar em prática toda a teoria que tenho como meta. Por isso fiquei um bom tempo distante. Alguns até me cobraram o retorno, mas ainda não era a hora.
Um dia resolvi que jogaria definitivamente no limbo este “diário”! Parte por desânimo, parte por falta de tempo, mas principalmente porque existem coisas das quais a gente prefere não se lembrar. Muito menos falar sobre elas. Coisas que seria melhor que nunca tivessem feito parte de nossa biografia, e que de “aventura” não tem nada.
Mas, como a negação nunca foi e nunca será a solução dos nossos problemas e como trabalhar com as diversas situações da vida é melhor do que fingir que elas não aconteceram, após me dar o direito de vivenciar meu luto, volto para postar e para lembrar que viver é a arte de recomeçar. Sempre.
Perdi meu pai. Um homem forte, de temperamento, de presença, de biotipo. Um homem bonito, que habita ainda em meu inconsciente como aquele que estaria ali, sempre pronto para me proteger e ajudar. Mas isso foi há muito tempo.
Nos últimos anos, dessa figura forte e quase invencível no meu imaginário infantil, sobraram apenas as fotos, nos diversos porta-retratos espalhados. Destaque especial para a que está posando de farda do exército. Esta foto era ( e é) a minha favorita. Não a tenho aqui para postar. Ainda está na estante da sala da casa deles...
Além dele estar muito bonito nela, no vigor máximo de sua juventude, há todo um valor intrínseco. É que ele tinha muito orgulho das forças armadas. Ele também gostava muito daquela foto. Afinal, de menino pobre, órfão de pai aos 15 anos, que sofreu grandes perdas e adversidades (sempre contava que no dia exato de seu 15° aniversário, ao ordenhar as vacas - tarefa não adiável- avistava a porta da casa aberta, e o corpo sendo velado sobre a mesa da sala... ), ostentar uma farda do Exército Brasileiro, era uma honra!
Lamentava ter saído de lá (na época da ditadura, as coisas eram muito complexas) mas essa grande perda (em seu entendimento) não o fez desistir. Buscou alternativas. Aliás, isso era uma coisa ele sabia fazer muito bem : recomeçar do zero, se reinventar, reconquistar os sonhos perdidos ou interrompidos, se superar...essa era sua vida (fui testemunha algumas vezes) !
Muitos foram os anos que passamos juntos. Muitas lições valiosas aprendidas por mim. Com a maturidade, conquistei a visão clara de sua condição de ser humano, falho, rude, incansável e exigente, às vezes incompreendido por mim, mas admirável pelas muitas virtudes que, graças à Deus, aprendi a reconhecer e admirar.
E em síntese, este era o homem.
Mas ERA é o tempo verbal mais adequado para falar dessa figura paterna que , apesar do tempo verbal utilizado (ERA), ainda HOJE vive forte em minha lembrança.
Mas este ERA não se refere só a hoje, depois de sua morte formal.
Há muito, não existia mais o pai que um dia eu conheci (e aí entra toda uma análise filosófica do que seria a morte e quando ela realmente ocorre.. mas isso a gente fala em outra oportunidade).
Sua figura frágil e magra sempre em posição fetal, o enorme esforço emocional (facilmente percebido) em se levantar da cama e vir nos saudar a cada vez que o visitávamos (preocupação em não nos frustrar); o sorriso que se obrigava a dar (embora visivelmente sem encantamento); o silêncio quando deveriam haver conversas animadas...
E os filmes tão ovacionados de faroeste que ele tanto gostava? Não havia mais beleza neles...
E as muitas músicas sertanejas de raiz que o faziam cantar alto e vibrar com as lembranças da infância rural? Não havia mais harmonia em nenhum som...
E as comidas favoritas, o prato sempre cheio, o orgulho da mesa farta, as preferências culinárias das quais nunca abria mão? Não havia mais sabor, cheiro, tempero ou cor...
Mas de tudo isso, o mais marcante era o olhar. Vazio e sem brilho, muitas vezes em um infinito não penetrável, demonstrava que não estava conosco em nossas comemorações, em nossas festividades, em nossas aventuras, nem em nossa rotina, embora de corpo presente, sempre, (já que nunca abrimos mão que estivesse entre nós, quando nos empenhávamos em mostrar a ele quanta coisa boa havia conquistado, fruto justo de seu trabalho duro, exemplos nobres, dedicação impar à família que tanto amava). Fazíamos questão de demonstrar o quão rico ele era. Nós, sua família, éramos sua maior riqueza.
Mas, como resultado dessa doença maldita, que lhe tirou toda a beleza da vida, como era de se esperar, aos 72 anos, no dia 17 de junho, parou de respirar.
Não consegui chorar.
Havia uma tristeza profunda em minha alma, mas a tristeza já havia feito morada em meu coração, e ver aqueles olhos fechados não era mais cruel do que ter acompanhado sua lenta opacidade dia após dia...
Antes, eles brilhavam com freqüência, e ver aquele brilho característico se perder, muito cruel, digo, foi mais cruel, posso assegurar.
Quando penso nesse poema de Fernando Pessoa, tão bem recitado por Paulo Autran, imagino meu pai, perdido em suas lembranças e sentimentos...
Esta não é uma postagem de vitimização.
Não se trata de lamentos das “desventuras do cotidiano”.
Não!
Sou grata à Deus por tudo de belo que vivemos. Pelas lembranças benditas que fizeram nossa história e que povoam minha memória. Pelo pai que tive oportunidade de ter.
Insisto em buscar para mim mesma a mesma capacidade que vi nele em tempos idos, (antes de a doença lhe roubar a essência de seu ser) , de recomeçar , de ser resiliente, ter plásticidade, fazer adaptações às circunstâncias, pronto para acordar no dia seguinte e seguir adiante à despeito das dificuldades, das tragédias, ou das perdas.
Querido papai, assim farei! Assim serei.
E prestem atenção todos que estiverem lendo isso aqui : NÃO me sinto desobrigada a obedecer o mandamento bíblico “honra teu pai e tua mãe para que se prolonguem seus dias na terra” Êxodo 20:12, nem mesmo depois da morte dele. Vou honrar sua memória, para que todos saibam o grande homem que ele foi e se pudesse ainda me ver (não pode! Descansa em paz) se orgulharia de mim, como sempre demonstrou que se orgulhava.
Que Deus me ajude a ser fiel às minhas origens, à minha família, aos meus princípios.
E a nunca negociar as coisas que realmente importam.

Nossa amiga, que volta triunfal... lindo e forte tudo que postou por aqui... e com certeza ele se orgulhou muito de vc... filha, esposa, mãe, amiga... que Deus continue abencõando vc, sua família e todos que te rodeiam, que vc continue iluminar com o brilho próprio que vc possui a todos.. beijos com muito carinho e saudades...
ResponderExcluirTriunfal é sob a perspectiva dos amigos mais chegados..rs.. mas volta, com certeza! Até porque preciso dizer pra mim mesma e para os que eu amo que é preciso continuar... A despeito das intercorrências do caminho(sejam eles quais forem).
ResponderExcluirE isso na prática!
Portando, aqui estou eu... Bjs
Coisa boa a sua volta, estava esperando!! Que bom q vc. guardou tantas histórias, momentos bons e deu enfâse à eles, mesmo que nem todos os dias não tenham sido tão bons assim. Deus sabe, Deus ouve, Deus vê. Temos esperança, sempre! Isso é o que nos move!!!!
ResponderExcluir"Não importa o que dizem de mim. Importa porém, o que penso, importa o que é certo e justo. Importa o que sou de verdade, a família que amo, os amigos e os bons momentos que essa curta vida nos proporciona juntos."
Você é uma linda!!!! Saudade imensa!!!Escreva sempre!
Lia querida. Obrigada pelo carinho. E como eu acabo de citar agora na última postagem, vou repetir a frase pra vc: "Nossas digitais não se apagam das vidas que tocamos."
ResponderExcluirAs suas estão em mim até hoje...rs
Bjs amada!
Esse texto é muito forte além de lindo...Tem um significado muito especial na minha vida também...Obrigada por tanta inspiração partilhada conosco!! bjos
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